O sistema operativo Android é a solução dominante no mobile. No entanto, a forma como tem crescido e o seu ecossistema variado tem levado à sua própria fragmentação. O que será expetável que aconteça e qual o caminho para o que virá a ser o sistema operativo móvel do futuro é explorado neste artigo.

O sistema operativo Android, que tem um núcleo Linux, é o resultado da aquisição por parte do gigante Google da empresa Android, Inc. em 2005, uma empresa de tecnologia que surgiu em Palo Alto na Califórnia, em outubro de 2003. O objetivo inicial foi projetar um sistema operativo que permitisse a interação tátil. Desde os seus primórdios que a empresa apresentou uma visão universal para a sua solução. A escalada no mercado foi impressionante, sendo hoje claramente o sistema operativo móvel que domina em termos de cota de mercado.

Cotas de mercado dos sistemas operativos

O sistema operativo faz a gestão eficiente dos vários recursos (conetividade, memória) e interface com o utilizador. Após uma tendência inicial de dispersão na variedade de soluções, atualmente a escolha recai entre as soluções: Android, iOS e Windows. Os dados de Novembro da NetMarketShare apontam para a seguinte distribuição de cotas de mercado:

Cota de mercado por sistema operativo móvelCotas de mercado (Fonte: netmarketshare)

Fragmentação do Android

O Android tem sido sempre associado à sua estratégia de fragmentação. Passados dois meses desde que o Android 6.0 Marshmallow foi lançado surge a sua primeira atualização. Os dados fornecidos pela Google apontam para uma taxa de penetração no mercado de 0,3%. Fazendo uma análise comparativa com o Android 2.2 Froyo, a versão mais antiga que ainda é suportada pela aplicação Google Play Store, esta apresenta um share 0,1% acima. A versão dominante do Android continua a ser a Android 4.4 KitKat, com cerca de 37,8% dos dispositivos em utilização. Por fim, de referir que o Android 5.0 e 5.1 Lollipop já têm 15,5% e 10,1%, respetivamente.

Existe, no entanto, um dado novo que poderá complicar a estratégia de crescimento do Android. Segundo dados da Consumer Intelligence Research Partners, cerca de 26% dos utilizadores que compraram o iPhone 6S foram clientes perdidos da Google. Enquanto a estratégia da Apple tem sido a de procurar acrescentar valor acrescido ao seu ecossistema, o Android continua uma caminhada fragmentada. Assim, o referido estudo aponta, ainda, para que cerca de 12% dos utilizadores do iPhone 6 e 23% dos clientes do iPhone 5S tenham sido clientes perdidos do Android.

Segundo Mike Levin, Partner and Co-Founder of CIRP,

“O iPhone 6S e 6S Plus atraíram comparativamente mais utilizadores Android do que aconteceu em condições semelhantes acerca de um ano atrás.”

Contudo, o relatório da IDC apresenta ainda um cenário mais favorável para o Android:

IDC Worldwide Quarterly Mobile Phone Tracker

Fonte: IDC Worldwide Quarterly Mobile Phone Tracker, 2015

Procurando clarificar as espetativas de crescimento mundiais por zona do globo, obtemos a seguinte tabela:

IDC Worldwide Quarterly Mobile Phone Tracker

(Fonte: IDC Worldwide Quarterly Mobile Phone Tracker, 2015)

A discussão em torno da fragmentação do Android é tipicamente conotada como algo negativo para os consumidores e, consequentemente, para a expansão do sistema operativo. Existe igualmente uma corrente que defende o oposto: a fragmentação é o seu ponto forte. É uma reflexão interessante tendo em conta que a fragmentação do Android se faz a vários níveis. A fragmentação do Android poderá começar por ser explicada, recorrendo à diversidade de fabricantes de dispositivos móveis e que podemos observar na representação gráfica abaixo:

Fragmentação do sistema operativo Android por fabricante

Fragmentação por fabricante (Fonte: OpenSignal)

A Samsung continua a dominar em número de dispositivos móveis suportados pela solução da Google, seguidos pela LG, Sony e Motorola. Contudo, é possível constatar que a Lenovo, em conjunto com a Motorola (que se fundiram), são atualmente quem mais perto da Samsung se encontra. O mesmo relatório ajuda a compreender a fragmentação geográfica:

Fragmentação geográfica do sistema operativo Android por fabricante

Fragmentação por fabricantes (Fonte: OpenSignal)

Por último, a OpenSignal reporta existirem cerca de 24,094 modelos diferentes de dispositivos Android ativos. O ecossistema que o Android terá que suportar é, assim, muito vasto: vários dispositivos, requisitos de hardware distintos em segmentos de produto igualmente distintos. O esforço para os programadores de aplicações é impressionante. Esta diversidade dificulta a otimização de código.

A Google e os App Developers têm como desafio conseguir que as aplicações “corram” em dispositivos muitos distintos e procurar que tal resulte na melhor experiência para o utilizador final da aplicação. De acordo com a OpenSignal, em 2015 a fragmentação ao nível das versões de Android decresceu, sendo a Kit Kat atualmente a versão dominante, embora a fragmentação ainda aconteça de vários modos. Contudo, no passado, durante o lançamento do Kit Kat existiam três versões distintas do Jelly Bean, uma versão do Ice Cream Sandwich e ainda os utilizadores do Gingerbread.

Outra questão relevante tem a ver com os retornos obtidos pelas App Stores, onde o Android continua a dominar no número de downloads. Contudo, o iOS é o que ainda consegue mais retorno do negócio na venda de aplicações. Desde o terceiro trimestre do ano passado até o primeiro trimestre do corrente ano, subiram de 60% para 70% relativamente ao Android.

Downloads e receitas das App Store iOS e Android

Downloads e receitas das App Store iOS e Android (Fonte: AndroidHeadLines)

Esta disparidade de receitas tem a sua génese na estratégia diferenciada da Google versus Apple. Enquanto a primeira aposta em permitir o download gratuito e, posteriormente, o pagamento de um valor para desbloquear na íntegra as potencialidades da aplicação, na loja da Apple o utilizador paga no momento do download um custo pela aplicação. Um estudo da Moovweb refere que, apesar de estar a encolher, existe um gap entre os utilizadores das duas soluções, sendo que os adeptos do iOS estão mais predispostos a pagar para utilizar uma aplicação.

Os software updates continuam – igualmente – a ser um problema no Android. A fauna tão extensa de equipamentos e cada OEM (Original Equipment Manufacturer) a tentar diferenciar-se dos restantes competidores, torna impossível a disponibilização de updates à velocidade que o Nexus consegue. Esta fragmentação é também estratégica por parte dos operadores de rede e fabricantes de terminais móveis, que preferem levar os utilizadores a procurarem novos dispositivos no mercado em detrimento da atualização para os seus dispositivos móveis atuais.

Android One

Um dos esforços para reduzir a fragmentação levou ao aparecimento do Android One. Esta versão de Android corre uma versão nova sem a necessidade do suporte das modificações extensões introduzidas pelos OEM. A segurança e os updates são disponibilizados pela Google diretamente, evitando os atrasos típicos dos OEM’s, que têm feito aparecer graves falhas ao nível da segurança nas versões antigas do Android. A primeira geração destes dispositivos teve o seu rollout na Paquistão, Índia, Nepal e nos restantes países do sul da Ásia em 2014. O slogan da Google “Be Together, Not The Same” ilustra bem o esforço na resolução do problema da fragmentação.

O que esperar do futuro próximo?

Entretanto a Google continua a mostrar o seu dinamismo. Segundo o site DigitalTrends, o propósito é definir um standard de componentes para o seu sistema operativo e, lider este processo, será uma forma de levar os restantes OEM’s a um percurso semelhante.

A Google continua a ser um gigante da área e encontra-se numa posição confortável, que é a de dominante no mercado. Tendencialmente, os vários tipos de dispositivos onde correm o seu sistema operativo móvel terão requisitos de hardware semelhantes, o que permitirá reduzir essa componente de fragmentação. A estabilidade e o consumo de bateria serão igualmente um desafio importante.

Num futuro breve (?), em que um dispositivo móvel poderá correr apenas um browser e em que o processamento será deslocado para a cloud, será a harmonização final que acabará com a fragmentação entre os vários sistemas operativos, resolvendo o problema da autonomia dos dispositivos (processamento pesado deslocado para a nuvem) e acabando com o atraso na disseminação de atualizações e correção de falhas de segurança. Contudo, se a evolução da tecnologia for nessa direção, um tópico resistirá mais uma vez. Está sempre presente no nosso dia-a-dia e muitas vezes é menosprezado: a digital footprint nunca acabará.

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